Reportagem | Irmãs Holandesas Franciscanas | MPE*

55 anos das ‘mães da pobreza’ esperancense
Chegadas na década de 50, as Irmãs da Congregação Franciscana atuaram na saúde, educação e ação social ajudando os mais pobres e o município de Esperança a crescer
2016
SD Arte de abertura da reportagem. ARTE: Thiago Albuquerque. TRATO: Evaldo Brasil.
POR FABRÍNIA ALMEIDA ET ALII - Nosso ponto de partida é a pequena cidade de Asten, que tem aproximadamente 16.565 habitantes (dados de 2014) e está situada na província de Brabante do Norte, segunda maior dos Países Baixos (Holanda).


(Clique na imagem para explorar as imediações da Congregação e a cidade de Asten.)


No número 27 da Rua Wilhelminastraat, fica o ‘Missiezusters Asten’ (‘Irmãs Missionárias de Asten’) a casa da Congregação das Irmãs Missionárias de São Francisco que tem 103 anos de existência.

Ó Mestre, fazei que eu procure mais, consolar que ser consolado;
compreender, que ser compreendido; amar, que ser amado.
Pois é dando que se recebe… (Oração de São Francisco)


Assim como São Francisco, um dos patronos da congregação, que saiu de sua terra natal e dedicou sua vida a ajudar os que mais precisavam, as irmãs holandesas da congregação também saíram de suas cidades com o propósito de dedicar sua vida em função de ajudar os outros em territórios distantes.

Um dos primeiros destinos das irmãs de São Francisco foi o continente africano. Depois as Irmãs chegaram às Américas se estabelecendo em Aruba (Ilha autônoma integrante do Reino dos Países Baixos, no Caribe) e posteriormente vieram para o Brasil. Atualmente, elas não têm mais presença em Aruba. Mas, ainda há missionárias no Brasil, em algumas localidades da Europa e na Ásia.

Na cidade de Esperança, no estado da Paraíba (além de nosso estado, as irmãs também possuem representação em Pernambuco). Tudo começou em Junho de 1959, quando a convite do Padre Manuel Palmeira da Rocha, as irmãs Porto e Oliveira chegaram à cidade. Elas foram convidadas a conhecer o terreno onde seria construída a Casa de Saúde e Maternidade São Francisco de Assis, e o terreno do Ginásio Diocesano, instituições que seriam dirigidas por elas.

Na época, Esperança carecia de uma instituição de saúde que conseguisse atender a população, mais especialmente aos mais pobres. Muitas são as histórias contadas de mulheres grávidas e pessoas doentes que precisavam se deslocar para outras cidades em jipes fretados que iam por estradas com péssimas condições em busca de tratamento médico em Campina Grande.

O Padre Palmeira, que foi um visionário de sua época, convocou lideranças políticas e encabeçou a campanha para que a situação mudasse. Nas missas, informou e motivou a população a fazer parte. O primeiro objetivo era conseguir um terreno na zona urbana onde a Maternidade pudesse ser construída. As lideranças políticas trataram de conseguir recursos estaduais para ajudar na realização do sonho da população esperancense.

SD
SD Ir. Batista, Júlia Santiago, Ir. Carmela, Ir. Thereziana e Pe. Palmeira visitando o canteiro de obras do prédio da CSMSFA. ARQUIVO: Maria de Lourdes Gomes Cândido. TRATO: Evaldo Brasil.
O terreno, parte do material e a mão de obra foram ajuda da prefeitura da cidade. A população, tanto ricos quanto pobres que queriam ver a obra concluída, se mobilizou e fez doações para concretizar a realização de um desejo antigo. Em 19 de julho de 1959, a pedra fundamental da casa de saúde foi assentada sob os olhares da população e de lideranças políticas como o governador da época, Pedro Gondim.

Em maio de 1961, chegaram as primeiras freiras holandesas missionárias em Esperança. Madre Hermenegilda, Irmã Theresiana e Irmã Batista chegaram à Paraíba e inicialmente ficaram hospedadas provisoriamente no Colégio das Damas, localizado em Campina Grande. Até que em 29 de julho do mesmo ano elas se estabeleceram em Esperança. Inicialmente, Dona Júlia Santiago, senhora muito conhecida e estimada na cidade hospedou as irmãs em sua residência enquanto o convento era construído no mesmo terreno onde erguiam a casa de saúde.

1959
SD Ir. Batista e Ir. Theresiana. ARQUIVO: Maria de Lourdes Gomes Cândido.TRATO: Evaldo Brasil.
Janeiro de 1962, chegaram a Esperança Ir. Carmela (foto junto às FONTES) e Ir. Bernadete, e em setembro, chegavam as irmãs Lúcia, Everdina e Redenpta.

Enquanto as obras não ficavam prontas, as irmãs começaram seu trabalho em instalações provisórias. Os atendimentos aos doentes eram em uma sala na Casa Paroquial, e a educação das crianças pobres de Esperança começou na zona rural do município e se estendeu até a cidade de Areial*. Além disso, elas ajudavam os pobres de várias maneiras. São muitos os relatos de pessoas que moram na cidade e na zona rural que dizem ter conseguido casas para morar, aprender uma profissão, educar seus filhos e várias outras graças a estas benfeitoras que tanto fizeram pelos pobres.

Depois de algum tempo funcionando provisoriamente, finalmente as obras começaram a ser inauguradas. Primeiro, foram inaugurados o Convento das Irmãs e a Capela de Santo Antônio. E no dia 17 de janeiro de 1965, um sonho esperancense era realizado: No número 516, da Rua Monsenhor Manoel Palmeira era inaugurada a Casa de Saúde e Maternidade São Francisco de Assis

(Clique na imagem para explorar as imediações da CSMSFA e a cidade de Esperança.)


Funcionando em seu próprio espaço, os atendimentos agora eram realizados de forma plena, atendendo a população esperancense e das cidades circunvizinhas. Lá eram realizados partos, cirurgias de pequeno e médio porte, e internações e consultas.

Nascida sob o nome de Maria Catarina Gerarda Von Den Eiden no ano de 1932, Ir. Luciana, hoje com 84 anos, enfermeira graduada e gestora da instituição é a única remanescente da missão de freiras holandesas que veio ao Brasil que ainda reside em Esperança. Essa senhora de olhos azuis, sorriso gentil e sotaque holandês marcado continua a ajudar da forma que pode. Ela é a que milita, junto com muitos outros para que a casa de saúde seja reaberta e que os trabalhos voltem a beneficiar a população. Há pessoas que ainda recorrem a Irmã, pedindo que ela ceda camas e cadeiras de rodas para famílias que têm algum enfermo em suas casas, mas que não têm condições de comprar ou alugar estes equipamentos. Se compararmos ao que era feito, e o que ainda poderia ser feito se os trabalhos tivessem continuidade, as atitudes de Ir. Luciana ainda são demonstração de boa vontade e compaixão pelo próximo.

1980 - 2016
SD Ir. Luciana, 1980, em arquivo de Maria de Lourdes Gomes Cândido e em 2016. FOTO: Fabrínia Almeida. TRATO: Evaldo Brasil.

Conversamos com a irmã sobre a missão, sua vida e a instituição, confira no vídeo:

Muitos funcionários tiveram a oportunidade de trabalhar e começar uma carreira graças ao trabalho das irmãs, uma delas foi Maria de Lourdes Gomes Cândido. Natural de Esperança, atualmente com 65 anos, ela nos contou que conheceu as irmãs quando tinha 13, e devido ao contato que passou a ter acabou sendo admitida como funcionária. No período de tempo em que trabalhou na casa, desempenhou várias funções como: auxiliar de ambulatório, enfermeira e integrante da equipe da cozinha.

1964
SD Maria de Lourdes Gomes Cândido (à esquerda), com 13 anos posando ao lado de uma das Irmãs com a Maternidade ao fundo. ARQUIVO: Maria de Lourdes Gomes Cândido.TRATO: Evaldo Brasil.


Em entrevista, ela nos conta sobre o que realizou, em seu trabalho como voluntária da obra e seu sentimento para com as irmãs, por quem mantém uma enorme gratidão e laço de amizade.

A casa de Saúde sempre passou por muitas dificuldades financeiras ao longo do tempo, mas sempre conseguindo resistir. Porém em 2015, a situação se agravou e sob a ameaça de iminente fechamento, as pessoas foram para as ruas de Esperança contra o fechamento da instituição.

Os clamores e esforços de todos infelizmente não foram suficientes. No mesmo ano, as portas se fecharam e a casa de saúde de todos os esperancenses sucumbiu ao descaso e ao esquecimento.



Mas, nunca morreu a vontade e a esperança daqueles que querem voltar a ver aquele prédio azul e branco de portas abertas para quem mais precisa; daqueles que querem ter com quem contar; da freira que, deixou sua casa e sua família para cumprir a missão de ajudar ao próximo; daquelas irmãs que, como o seu patrono São Francisco, só desejam levar esperança onde há desespero e alegria onde há tristeza.

2015
27MAR15 Protesto contra o fechamento da Casa de Saúde e Maternidade São Francisco de Assis. FOTO: Moisés Fabrício. TRATO: Evaldo Brasil.

*Emancipado pela lei estadual nº 2.606, de 05-12-1961, desmembrado-se de Esperança.


SD Ir. Carmela. 
Atuou principalmente em ação social. 
ARQUIVO: Idem. 
TRATO: Evaldo Brasil.
FONTES CONSULTADAS:
DA SILVA, Marilda Coelho. ‘Irmãs Franciscanas: 50 anos de Benfeitorias À Comunidade Esperancense.’ Ano de publicação: 2011. Disponível em: http://mgculturalpb.blogspot.com.br/2011/06/irmas-franciscanas-50-anos-de.html . Acesso em: 24 de oct. 2016.
FERREIRA, Rau. ’50 Anos da Chegada das Irmãs Holandesas em Esperança. Ano de publicação: 2011. Disponível em: http://historiaesperancense.blogspot.com.br/2011/06/50-anos-das-irmas-holandesas-em.html . Acesso em: 24 de oct. 2016.
BASTOS, João Batista. ‘O Sonho da Casa de Saúde e Maternidade São Francisco de Assis.’ Ano de publicação: 2013. Disponível em: http://revivendoesperancapb.blogspot.com.br/2013/08/o-sonho-da-casa-de-saude-e-maternidade.html . Acesso em: 25 de oct. 2016.
Acervo fotográfico de Maria de Lourdes Gomes Cândido.
Tema musical: Oração de São Francisco- Instrumental por Tim Rescala.
Trabalho desenvolvido para o curso de bacharelado em Comunicação Social- Jornalismo, sob orientação da professora Verônica Almeida de Oliveira Lima para o componente curricular Comunicação Multimídia.
Equipe:
Texto: Fabrínia Almeida
Revisão: Danielly Thayná, Max Marcel e Eduardo Monteiro
Vídeo: Fabrínia Almeida e Thiago Albuquerque.
Edição: Thiago Albuquerque.
Artes: Thiago Albuquerque.
Não reproduzir sem os devidos créditos.


ORIGINAL
https://medium.com/@fabriniaalmeida/irm%C3%A3s-holandesas-franciscanas-55-anos-das-m%C3%A3es-da-pobreza-esperancense-cb3263d4dc5f#.cskin913u

EXTRAS
SD
SD Ir. Batista em sua primeira visita ao Mercado Público. ARQUIVO: Maria de Lourdes Gomes Cândido.TRATO: Evaldo Brasil.
...
SD Irmãs, Padre Palmeira e um visitante, à direita. ARQUIVO: Maria de Lourdes Gomes Cândido.TRATO: Evaldo Brasil.
...
SD As Irmãs presentes em evento no adro da Matriz, com destaque para a antiga prefeitura. FONTE: Perfil Cida Galdino no facebook. TRATO: Evaldo Brasil.
2016
SD A Irmã Luciana, em sua penúltima entrevista, para a aprendiza Fabrínia Almeida. FONTE: Perfil no facebook. TRATO: Evaldo Brasil.
2017, 10 de Março
Capítulo Final
É realmente o capítulo que eu não gostaria de escrever. Mas como disse a minha mãe: 'minha filha, o capítulo é injusto de escrever. Mas, sei que você vai escrevê-lo.' Cheguei na metade dessa história, quando relógio marcava 01:35 de uma madrugada friorenta de julho. Das poucas pessoas que abriram a porta para mim nesse mundo aqui (e para a história), foi você. Devo o acolhimento e parte da minha educação a você e as suas queridas ‘irmãs’. 24 anos depois eu voltei para cumprir uma das tarefas mais felizes da minha vida, e você novamente me recebeu com olhos azuis animados, sorriso largo e sotaque alegre. Era tarde de Outubro, e você, mesmo cansada, recebia uma mera aprendiza de jornalista que queria contar parte da sua história. Era a mesma paciência, a mesma simpatia. Conversei muito e você pacientemente me deu todas as respostas que eu procurava. Depois daquela entrevista, foi que eu tive a dimensão real da sua compaixão e amor pelo próximo independentemente de quem ele seja eram muito maiores do que eu acreditava ser. Na entrevista você estava triste quando em resposta a uma das minhas perguntas lamentou o fato do projeto ao qual dedicou toda a sua vida estar parado. Aquela resposta só aumentou a minha responsabilidade em contar a história do jeito que ela deveria ser contada, a fim de oferecer um pouco de alegria a sua alma que estava tão tristonha e cansada. Seguindo o exemplo que tem na oração do Santo Padroeiro de sua ordem, eu só queria levar a verdade onde tinha erro. Você e toda essa história tinham que surgir, para lembrar que essas histórias não devem ser esquecidas. Como escrevi em outro lugar, ‘consultei o coração’ e ele fez o melhor que podia.

‘Quem é a menina que escreve?’ É, novamente sou eu. Mas hoje, não escrevo com um sorriso, como fiz no outro! Agora, infelizmente, escrevo chorando. O ciclo natural da vida me obriga a escrever este injusto capítulo que se encerrou as 13:45 dessa triste sexta-feira.

Hoje mais uma porta se abriu e infelizmente você foi embora. Mas, me deixando a lição de que tenho que lidar com a parte injusta da profissão que escolhi seguir, vendo o personagem que tentei descrever em palavras se despedir do convívio de todos. Você é e sempre vai ser lembrada como uma joia preciosa, que vestia marrom e tinha um só pensamento: Ajudar, ajudar e ajudar. Querida irmã, você cumpriu sua missão. Agora, só posso desejar que você possa estar serena junto ao senhor Deus que te convocou para estar junto dele.

Obrigada por ter me aberto portas e por ter deixado que eu escrevesse sua história, obrigada por ter sido este bom exemplo por quem vale a pena derramar lágrimas e por ter sido um pouco mãe de muitos nessa cidade que hoje chora com a sua despedida. Minhas condolências a família Von Den Einden, a Congregação das Irmãs Franciscanas na Holanda e no Brasil e a todos que fazem parte da família brasileira que você adotou.

Fabrínia Almeida, no facebook.

Comentários

  1. Fabrinia Almeida, via Facebook: Evaldo querido! Obrigada por seu carinho e reconhecimento (que não vem de agora!). Agradeço em meu nome e também em nome dos meus colegas que produziram isso junto comigo.

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  2. João Delfino, idem: Parabéns por resgatar um rico capítulo de nossa história. Convicto de que está nascendo uma escritora/historiadora.

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