C49-013 A Ondulação leve da Superfície das Águas


[O Açude Velho, Banabuyê (Banabuié) é aqui o objeto de discussão. O enredo gira em torno dos significados da palavra “Siririca”. Trata-se aqui, de como, aos poucos, a comunidade cometeu o crime coletivo de levar o açude a ser fossa a céu aberto, até agora, quando obras públicas começam a revitalizar a área. O Parque do Açude Velho é solicitado como sonho de infância.]

I
A palavra tem alma, tem uso e razão,
Em sua origem define algo bom e real
Com o tempo muda, para novo uso,
Mesmo assim continua soando normal.
Qual a rota, o caminho por ela seguido,
Pra manter-se atual e ter novo sentido
Arrancaria a poesia de ser original?

II
Lancei uma pedra no velho Banabuyê
Ajudei a matá-lo, sequer ficou mágoas,
E as esferas surgiram em belos sinais
Sumiram ligeiras, sem foto, sem flagra.
Continuaram as siriricas, na origem tupi,
Como ninfa bailando, que em menino vi,
Leve ondulação da superfície das águas.

III
Pesquei uma piaba no velho Banabuyê
Ajudei a despovoá-lo com uma siririca
Mergulhei sem nadar com a lama no pé
Enquanto lavavam a égua, uma burrica,
Caminhonete, rural, jipe e as bacorinhas,
Pai-de-chiqueiro, cabritinhos e galinhas.
Assim destruímos nossa fonte mais rica.

IV
Desmatei as margens do velho Banabuyê
E o canto da siririca não se pode ouvir
Sem fêmea não há macho, some o facho,
Para onde será que foram os bem-te-vis?
No esgoto, no lixo do luxo e no improviso,
Luta por moradia, descaso, falta de aviso,
Deixamos à própria sorte o balneário feliz.

V
E, sem modos, matei o velho Banabuyê,
Quanto doidivanas, nesse meio, habita?
Um piririca sem rumo, coisa de siririca,
Quando nas águas que bebe se regurgita?
E o crime coletivo que todos nós cometemos
Aparentemente impune, no lombo trazemos,
Enquanto remediar o incurável se cogita.

VI
E assim, nas pedras do velho Banabuyê,
Rolaria rala-bucho, rala e rola, relação,
Siririca, quiromania, pega-pega, onanismo,
Gente jovem, gente ingênua em felação…
Sem medo da pedra liste, em mau uso,
De espaço em abandono, vem o abuso,
Sobre o manto do açude em podridão.

VII
Leve ondulação na superfície da água:
Siririca, em tupi, idioma ainda usado,
Serve, em modestos versos contados,
Para um desejo novamente colocado:
Quando virá o Parque do Açude Velho?
E aquela área voltará a um tempo belo
Pra redimir a nossa gente do pecado.

• Extra •
Está passada a mensagem pensada
Banabuyê é meu sonho de infância
Revendo fatos sem culpar a ninguém
Apontando apenas nossa ignorância.
Se alguém se incomodar, quem dera,
Isso pede fazer do meu sonho quimera
Livrai-nos Deus do poder da ganância.


Evaldo Pedro Brasil da Costa
(28 de dezembro de 2007)

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