C49-012 De Como o Lobisomem Revelou seu Amor


(No coito da Porca Libidinosa com o Homem-nu)



(Nesses versos o eu lírico, em primeira pessoa, se faz personagem principal e narrador. Os personagens que povoam a imaginação dos mais velhos moradores de Esperança, aqui se encontram, enquanto a sexualidade é tratada de modo heterodoxo, tendo como cenário coisas da cidade e o Açude Velho Banabuyê).

I
Acordei da minha condição humana
E a noite ficou clara como um dia.
Senti o cheiro de uma loucura insana,
Estranho encontro, verdadeira orgia.
Quando a lua-cheia se fez sol pra mim,
Entre flores pisadas, eu, no seu jardim,
Sondei pela janela, era você, quem via.

II
Enquanto a Porca se transformava
E o Homem-nu em branco reluzia
Outros casais também fornicavam
Tantos em sono; outros em agonia.
Eu farejava um forte cheiro de sexo
Num aparente encontro sem nexo
Eu e você, neles dois – eu veria.

III
Cruzei a cidade em plena escuridão
Pelo beco do padre, eu perseguia,
Sem sinal da cruz, sem temer punição,
Sentido ampliado: o instinto, meu guia.
Na libidinosa ninfeta, te via meu anjo,
No desnudo, eu encarnava um arcanjo,
Ao lembrar, assim, quando você sorria.

IV
Saí das imediações da velha Matança
Nas margens do velho açude cheguei
Vi o casal numa indescritível dança
Algo que, sequer em sonho, imaginei.
Via você, via a mim mesmo Narciso,
Moldando esse inferno em paraíso,
Desolado relembro o que testemunhei.

V
Enquanto eu, nu em pelos, sem roupas,
Ela se desnudara das suas tantas capas.
Enquanto eu ardia, monstruoso, às soltas,
Eles bailavam entre gozos, panos e napas.
Enquanto você gemia, sonhava, acordava,
Em si dedilhava, tremia; e insone desejava,
Meu corpo inteiro, as mordidas e os tapas.

VI
Uivei voraz, sem causar-lhes espanto,
Eles dois se faziam um só, nem aí,
Eu me acalmei diante daquele encanto
Meus pelos, ao nascer do sol, os perdi.
Vi que eles curariam meu corpo suado
Que eles nadariam no Banabuyê gelado
Iara e Boto-cor-de-rosa, casal a sumir.

VII
Como se afogamento tivesse sofrido
Lá ficara inerte meu corpo molhado
Deitado na pedra, regelado, despido,
Sem uma ferida, apenas minguado.
Eu estava perdido em tua articulação
(Um esquelético ogro em dilapidação)
Pudica diabra que me fez derrotado.

• Extra •
Está passada a mensagem construída
Banco a força do poema, sai em estalo,
Revirando fatos sem falar de ninguém
Aprimorando apenas o estilo em que falo.
Se alguém se incomoda, mas quem diria,
Isso pode levar nesses versos à fantasia
Louvemos a Deus, por poder encantá-los.


Evaldo Pedro da Costa Brasil
(28 de Dezembro de 2007)

veja abaixo a primeira capa

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